Matraqueando a zebra que protege os transeuntes funâmbulos de possíveis coices mecânicos, o malabarista, de nariz vermelho e arredondado, com um chapéu de coco como adorno imprescindível da sua indumentária, iniciava o espectáculo. Quatro malabares, três numa mão e o restante, bambo, na outra, serviam como ferramentas do ofício; o dom de fazer sorrir, esse, era parte intrínseca da sua natureza. Primeiro um, depois dois, e num par de segundos os quatro giravam num movimento único e sincronizado. A plateia, impaciente, fixava os olhos no sinal vermelho e só por vezes, de soslaio, observava desinteressada o espectáculo circense. Mas tal como Ícaro o provou, a batalha contra a gravidade é sempre um risco assumido que, só obstinados como este artista a tomam de peito aberto. Ora, não seria então de estranhar que o exercício pouco a pouco fosse perdendo a simetria inicial: um dos malabares, por sinal aquele que no inicio dava já sinais de alguma preguiçite crónica, começava a desorganizar teimosamente aquele acto harmónico. Até que, de tanto ameaçar, o irreverente malabar estatelou-se no chão; rapidamente, o artista, recolheu-o e lançou-o outra vez juntamente com os outros... Mas qual que! Nem por nada se mantinha no ar! Apesar do malabar não seguir a ordem do exercício, o malabarista encontrava-se sereno, sorria para a plateia sempre que podia e demonstrava um ar de quem aceitava as leis da física, mas sobretudo as da vida.
O sinal agora preparava-se para ficar verde, o ruído dos motores era cada vez mais ensurdecedor, os olhos dos condutores tinham um só ângulo e como pilotos de uma qualquer corrida da vida engatavam-se na caixa da mudança. Precavendo-se, o artista, levantou o chapéu, emaranhou-se no ruído e no fumo que pairavam como uma névoa maligna, e, um a um, foi mostrando o fundo do coco à plateia hipnótica. Entretanto, o verde saltara e os veículos como loucos desenfreados iniciaram a marcha, ele, sem tempo para muito mais fintou-os habilmente como um elástico bailarino, e, com o sorriso como marca da sua imagem, colocou o chapéu vazio na cabeça e esperou que o sinal voltasse a ficar vermelho.