Faz hoje precisamente quatro anos desde a última
vez que lá fui. Confesso que é um momento especial
para mim, por isso retiro de um plástico transparente
o fato que normalmente uso neste dia. Coloco-o
em cima da cama do meu quarto com muito carinho;
sinto um inesperado e intenso odor a mofo que se propaga
velozmente pelo resto da casa. Bem
sei que o devia tirar mais vezes para fora ao longo do
ano, mas, reconheço que só me lembro dele em ocasiões
como a de hoje. Aliás, surgiu-me uma pequena
dúvida em relação ao lenço que coloquei da última
vez na farpela: se o bege ou o verde com umas pequenas
estrelinhas brancas. Pouco importa. Qualquer
um dos dois alinha perfeitamente com o fato. Verifico
se o cheiro continua intenso: algo que se confirma.
Vesti-lo-ei assim mesmo. Preparo a saída. Percorro
com uma mão e sem muito critério o comando do
televisor, com a outra mão vasculho nuns papéis
amontoados em cima de uma pequena mesa o cartão com o número de alistado. Encontro-o junto a recibos
de gasolina. Comprovo que os combustíveis subiram
um pouco nestes últimos anos. 23459, é um dos poucos
números que não sei de memória. Por fim, saio
de casa. Percorro a pé um curto trajecto até ao local
da minha acção. Chego ao meu destino. Vislumbro
duas traves de cimento, bem grandes, no lado direito
da estreita rua - têm marcadas com letras eruditas o
que parece ser o nome da cidade. Não estavam ali da
última vez que por aqui passei. Entro na pequena escola
a que chamam: local improvisado de intervenção
cívica – será só até às sete da tarde de
hoje. Uma parede exibe a numeração correspondente
a cada sala: do 20000 ao 23480 sala dois, do 23480
ao 35000 na sala quatro. Tento encontrar o espaço que
corresponde ao meu número. Hesito por um momento.
Decido entrar na sala quatro. Neste curto espaço
de tempo cruzo-me com pessoas que devem ter o
mesmo pensamento que o meu: que lindo lenço levo
ao peito. Dirijo-me a três indivíduos que estão sentados
sobre uma pequena mesa rectangular. Olham-me
macambúzios. A pessoa que se encontra ao centro da mesa lança-me um sorriso inquiridor. Tem uma caixa
de madeira, com uma leve ranhura no seu topo,
mesmo na sua frente. Pede-me o número. Passo-lhe
com delicadeza o cartão de alistado. Diz-me que estou
na sala errada. Saio. Tento exibir um sorriso de
perfeita normalidade, como se fizesse aquilo todos os
dias. Entro na sala dois e volto encontrar o mesmo
cenário que na quatro, se bem que a pessoa que me
identifica – a que se encontra no centro – exibe um
sorriso triste. Parece aborrecida. Ouço por toda a sala
o meu nome e por todo o meu corpo corre uma sensação
de orgulho patriótico. Recolho o boletim e dirijo- me para a pequena divisória de madeira que impede
que alguém me veja do tronco para cima. Olho para
a minha esquerda e depois para a minha direita para
confirmar que de facto ninguém me vê. Faço este gesto
umas duas vezes para cada lado. Observo o boletim
fixamente e hesito várias vezes em qual escolher. Os
símbolos parecem-me todos iguais. Pressiono bem a
caneta e faço uma cruz muito lentamente no homem
que sorria nas bandeirinhas. Actuo de forma a que o
momento dure o suficiente para me sentir parte dele.
Dobro o papel em quatro partes. Olho novamente
para os meus dois lados – agora só uma vez para cada
lado. Dirijo-me à mesa novamente e faço questão de
ser eu a colocar o papel na ranhura da caixa. Percorre-
-me novamente a mesma sensação de há pouco – não
tão intensa. Descrevo a sala até à porta e cruzo-me
com as mesmas pessoas que pensam o mesmo que
eu. Ajusto o lenço – afinal escolhera o bege – e faço o
caminho de regresso. De volta a casa ligo a televisão
e percorro novamente o comando. Paro uns segundos
num canal. Reparo num homem que aparentemente
indignado, pergunta: Mas que raio de democracia é
esta em que vivem… Não o deixo acabar e mudo rapidamente
de programa. Dispo o fato. Coloco-o no
plástico com extrema delicadeza. Vejo que agora sim,
o odor não é tão intenso. Junto a ele coloco o lenço.
É este que quero voltar a usar dentro de quatro anos.