Que tens essa pele irreverente e serena,
Esse cabelo instintivamente vaidoso
- que nem à mão da chuva cede! -
E esse sorriso intepestuosamente sedoso
Que o espaço de outros sorrisos não mede;
Tu que tens essa voz morna e aveludada
Que em cada palavra cantada
Esconde um frêmito melancólico de outono,
Tu e esses teus doces negros olhos fechados
Que a cada final de dezembro,
Fazem a dança hipnótica do sono.
Tu Marioneta
Que para ganhares vida, fizeste mimica para as estrelas
- mas as estrelas nem sempre te quiserem entender -
Tu que adormeceste mochos sonâmbulos pelo dia
- mas os mochos nem sempre te quiserem ver -
Tu que ainda ontem vivias sozinha
Naquele número treze da rua do imaginário,
Onde aprendeste o abecedário
De como dizer não a ti própria,
Mas que afinal esse grito compungido
- que ninguém ouviu -
De despertares a vida,
Fora afinal um mero engano vendido
Pela moral moralmente retorcida;
Tu que ainda ontem tinhas o sonho
De seres funambula por um dia,
Que não fosse essa fina cordinha
Presa à tua condição,
E continuarias a ter essa ténue esperança
De seres aplaudida
Pela exigente plateia de papel e cartão.
Tu Marioneta
Que sempre acreditaste nessa tua réstia de humanidade
Não fosse esse coração feito de madeira chã
E terias a racional veleidade,
De morreres amanhã.