Despertou lentamente, na languidez madrugadora do dia.
Mais um dia.
Merda
Mais um dia. Olhava o tecto do quarto, numa imagem de caleidoscópio aquele cubículo castrador do trabalho e a sua minúscula janela virada para a linha do comboio. Quantos comboios contara. Quantos comboios. E o Fonseca, todo o santo dia a levar com o Fonseca.... O Fonseca. O cubículo. A minúscula janela. Os comboios. A linha dos comboios. Mais um dia. Olhava o tecto. Os gestos como os pensamentos: mecânicos.
O calor do leito retemperava-lhe os sentidos, numa volúpia serena. A companheira, a da vida, abraçou-o numa convulsão primitiva dos corpos, naquele desejo hipnotizado, naquele estremecimento da natureza.
Beijaram-se.
Rodaram-se tropegamente, um sobre o outro – a elasticidade dos corpos não era a mesma. Não era. Sorriram, cúmplices e beijaram-se, novamente. Ela, delicada, racional, feminina, deu-lhe um vai com a mão, um carinhoso vai, vai que estás atrasado, um vai que era afinal um não, um não vás, que era um fica.
Fica.
Pareceu entender a mensagem. Pareceu. Rodou-se uma vez mais sobre ela. Amarrou-a com uma bruta leveza. Olhou-a nos olhos, em silêncio. Um silêncio ausente. Secreto.
(Levantou-se...)
Tomou um banho. Um banho de criança-homem onde água corre sobre o corpo num breve compasso do tempo sem significância. Na sua mente a rotina, outra vez a Merda da rotina, o cubículo, a pequena janela, a linha do comboio e o Fonseca, o raio do Fonseca!
Mais um dia.
Vestiu a indumentária habitual perdida em partes pelos móveis silenciosos e pesados do quarto. Calçou os sapatos negros. Olhou-se no espelho, mas não se viu. Beijou-a novamente com um leve arrastar de mão pelo rosto. Ela sorriu. Sorriu. Passou no quarto dos filhos. Dormiam. Aconchegou-lhes os pés. Suspirou. Um suspiro. Um normal suspiro. Pegou na pasta, a pasta que é mais um amuleto que uma pasta, que nada leva, que ali vai pendurada, ao tiracolo, num ritual, um ritual de companhia, uma companhia solitária.
Saiu de casa.
Caminhou na direcção do veículo, o novo veículo, o da família, pequeno, mas confortável. Ao chegar, naquele quase chegar, o chegar que nunca chega, resvalou violentamente e caiu. O bater da cabeça no lancil da calçada produziu um ruído surdo. A pasta voou e abriu-se, vazia. Um sapato soltou-se. Deteve-se do seu lado, negro, quieto, mudo.
Mudo.
Sentiu uma turvês, uma leve sensação de embriaguez, de prazer, onde o corpo se deixa ir lentamente, lentamente, numa doce resignação...Ainda distinguiu um Ai meu deus! Mas já não era preciso.
Não era preciso...
Merda
A rotina.