w.c constrangido

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terça-feira

Vendedor porta-a-porta, o Peixoto


Oh amigo, - respondia num tom aborrecido ao mesmo tempo complacente - já cá passou um seu colega... 

E na verdade já lá tinham passado os colegas: o da luz, o da água, o dos livros, o da fé, para cobrarem, para venderem, para pregarem, para baterem à porta...O Peixoto, o Peixoto esse era o da Televisão, o colega dos canais da Televisão, o dos pacotes da Televisãodo sonho digital, do comando Xld vendidos porta-a-porta a meia jornada e comissão. Comissão, claro. Mas como era sempre o último a passar, era sempre o último, rotulavam-no de colega, o colega do colega do colega.

Já cá passou um seu colega...

Vendedor porta-a-porta, o Peixoto. Não sonhara, não sonhara. Estudara, estudara tanto e sonhara outro tanto com aquela mesa de escritório das nove às seis com pausa para o almoço e férias pagas, as de Agosto; estudara tanto que acabara aqui: vendedor da Televisão porta-a-porta a meia jornada e comissão. Que remédio. A conjuntura. Fora a conjuntura. O produto até era bom, aparentava ser bom com conversa de sorriso, bem impingido, vendia-se bem. E a comissão, a comissão...

Chegas à porta e bates as vezes que for preciso! 

As vezes que fosse preciso, instruía o Zé Cardoso chefe de equipa, astuto, conhecedor da poda, um pau de cara que chegava às casas e nem que batesse à janela, nem que avançasse o portão, o cliente pelo menos à porta tem que vir! O cliente. Bater as vezes que fosse preciso.

Contudo para o Peixoto as vezes fosse preciso eram demasiadas. Infinitas. Incomodava, incomodava tudo e todos e se não estivesse ninguém em casa? ou se estivessem a dormir? A timidez umbilical invadia-lhe o corpo, invadia.

Bates as vezes que for preciso

E ainda havia que enfrentar aqueles cães do mundo, pequenos, enormes, rafeiros a protestarem da alma para fora, a protestarem com a vida, a dificultarem a comunicação O que quer!? Dizia uma voz lá bem do alto da janela entreaberta, desconfiada, e o Peixoto exalando coragem com a resposta engatilhada lá nos fundos da voz pronto a responder que era o da Televisão, o do sonho digital, do comando Xld... e lá vinha o danado a ladrar, aquele ladrar esganiçado, rouco, raivoso o raio do cão, do mundo... rau rau, rau rau, a deixar a resposta suspensa, imperceptível, sem voz.

O que quer!?

Não queria nada. Abandonava resignado o perímetro da casa a passo ligeiro, aquele passo sorrateiro, de bailarino, que não quer deixar rasto, com os cães, os rafeiros, a decorarem aquele alheio e triste pano de fundo, e deixava-se tudo, tudo para trás. Tudo.

Zero vendas

Zero

Desolador. Ainda dava contra si mesmo uma última e obstinada oportunidade vinda sabe-se lá de onde; punha-se a outra porta, media qual seria o perfil do morador, inspirava, mentalizava a coragem, representava em sussurro as palavras chave são só vinte e quatro e cinquenta, simulava um bater de porta, os gestos do corpo, de mãos, e quando menos esperava lá vinham os cães, os rafeiros, do mundo... rau rau, rau rau.

Desistia

Sentava-se então na beira de um passeio, numa quase resignação, quase, com aquele impermeável no corpo que refulgia nas suas costas a letras garrafais “Televisão” e deixava-se respirar, deixava-se respirar a alma do vento, um vento sigiloso, pelo menos isso, respirar a alma do vento, sigiloso, o Peixoto, vendedor da Televisão porta-a-porta a meia jornada e comissão.

Zero vendas

Zero

O que quer!?

Não queria nada.