w.c constrangido
quarta-feira
Dois silêncios, bem grandes, bem brutos
Agora nega o roubo, filho da puta! E o estadista, que afirmava ser filho de pai e de mãe e um prezado chefe de família, sorriu; sorriu levemente, um sorriso leve mas firme, um sorriso de estadista, um sorriso académico, um sorriso treinado, um sorriso de homem, um sorriso que não era sorriso, que lá no fundo era medo, uma manifestação de medo, - cagado de medo - um medo que sorria àquela ameaçadora e pitoresca locução interjetiva. Pediu licença para passar, por favor, com a sua licença, e seguiu o seu caminho acompanhado pelos silêncios, dois silêncios, bem grandes, bem brutos, dois silêncios de estado...nega o roubo, filho da puta! Mas o estadista, digno chefe de família, já não ouviu, talvez tapado pelos dois silêncios, grandes, bem grandes, ou talvez ouviu e fez de conta que não ouviu, um faz de conta comprometido, um faz de conta dos cúmplices, um faz de conta dos estadistas, que por acaso, só por acaso, até são homens. Agora nega o roubo, filho da puta!