Um lento e soturno rumor de passos vai-se arrastando em direcção ao mar.
O céu cobre-se de um cinzento espesso.
Não chove
Não há sinal de vento. O ar pesa. O tempo parece parado, parece.
Sente-se um intenso odor a parafina derretida, intenso...pesado.
O rumor vai pouco a pouco tomando a forma de uma densa e sigilosa massa de corpos que se move silenciosa sobre a calçada - leva rostos hipnotizados, rostos hipnotizados...
Uma cruz
Uma grande cruz, austera, em molde de plástico, comanda.
Seguem-lhe os homens.
Cinco ao todo
Cobrem o dorso com túnicas de algodão pintadas a um violeta lúgubre.
À cintura prendem um baraço negro, grosso e negro.
Carregam um ar pesado, comprometido, em contrição.
Logo atrás seguem outros três homens: um de bombo leguero ao peito e os outros dois à tarola.
Mudos seguem.
No final do espesso corpo uma longa cauda arrasta o restante vulgo, arrasta os velhos,
arrasta as mulheres, as mulheres, muitas mulheres - silenciosas e compungidas
articulam a boca em rezas maquinais, submissas.
Vislumbra-se o mar
Chegam a uma praça de quatro bancos de madeira e um chafariz sem água.
A cruz é descida cuidadosamente. O corpo de gente comprime-se num bloco denso e sólido.
Os passos detêm-se.
Ouve-se um veloz e repentino rasto, um zumbido estridente vindo não se sabe de onde.
Sente-se um rebentamento.
Outro
E mais outro
E outro
O mais pletórico de todos
POOOUUUUMMMM!
Um cão ladra
Beija-se a cruz. Beijos que não são beijos.
Com um pequeno lenço de linho um dos homens de túnica violeta
limpa rigorosamente cada toque de lábios, mecânico e cumpridor.
O mar move-se repetitivo, lânguido. Duas gaivotas passam rasantes sobre a areia.
Um sapato perde-se pela areira, imóvel e solitário.
O vento sopra agora, suave. Vê-se um barco ao longe, parado.Suavemente parado
Ouve-se um som polifônico, irritante, oriundo de um telefone portátil, talvez...
É de um telefone portátil
Um carro buzinou.
Duas vezes
A multidão dispersa-se, subitamente
Desaparece
Os homens dos instrumentos fecham:
Ta ta, ta ta poumm, ta ta, ta ta poumm, ta ta, ta ta poumm
Uma criança assusta-se.
Ta ta, ta ta poumm, ta ta, ta ta poumm, ta ta, ta ta poum, ta ta, ta ta poumm...
O barulho vai-se desfazendo lentamente no ar
O cão ladra novamente
Ta ta, ta ta poumm, ta ta, ta ta poum...
Parece que vai chover
Chove.