w.c constrangido

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quarta-feira

O Martelo*

Há um dia nas nossas vidas em que tudo muda. Ou pelo menos devia ser assim. Um dia em que decidimos reverter o sentido das coisas, sairmos do nosso quadrado de rotinas e comportamentos e gritarmos convictamente à nossa liberdade umbilical.

Foi o que me aconteceu naquela fria e eterna segunda-feira de Dezembro.

Cansado de tudo. Da rotina. Daquela resignada rotina que me tolhia corpo e mente, entrei intempestivamente na marquise de minha casa, contornei a máquina de lavar, colhi a velha caixa de ferramentas, retirei de lá de dentro o martelo de ponta de aço – poucas vezes usei este martelo – e dirigi-me à sala de estar para rebentar de uma vez por todas com ela.

Com o martelo bem fixo na mão, contando cada passo como se do último tratasse, passei pela cozinha, lançei um leve olhar sobre o frigorífico, nunca tinha reparado naquele frigorífico, cheio de memórias, de autocolantes e listas infinitas de compras; subi os quatro degraus que levam à sala de estar, as mãos continuavam bem presas ao martelo, entrei e circunscrevi um longo olhar sobre todo o perímetro da sala; toda ela estava imersa naquele silêncio recolhido, preguiçando objectos, o móvel pesado de madeira que se alongava por uma das paredes onde estavam livros, alguns livros, estáticos, como múmias, eternas múmias, e a colecção de caixinhas de madeira, vazias no seu interior, compradas numas férias de Agosto eternizadas no tempo; o sofá de dois lugares, de couro e desbotado pelo peso dela, em frente uma pequena mesa repleta de revistas e conselhos gratuitos, um pequeno jarro em louça com um desenho artístico na sua superfície, que nunca entendi o seu significado, e uma doce sardinheira no seu interior, do seu lado estava o controlo remoto da televisão, a enorme televisão que preenchia toda a parede norte da sala até ao fundo, onde se prostravam algumas fotos mudas e um relógio, um velho relógio que meu Pai me oferecera, com uma portinhola em madeira e um refulgente badalo que contava maquinalmente o meu tempo, todo o meu tempo.

Dei dois passos à frente, inspirei, mentalizei o gesto, soergui o martelo lá bem no alto, com os braços bem estirados na posição de arremesso e quando me preparava para de uma vez por todas rebentar com toda a rotina, com toda, como se nada o esperasse, gritaram o meu nome: Fernando!...Fernando!! - era um grito exasperadamente lânguido - As caixinhas não...


*Texto para a 5º edição da revista Ofélia