quinta-feira, 24 de maio de 2012
O teclado alfanumérico
O homem que ali escreve a estas horas da noite, e as horas não sabemos ao certo
quais são, mas sim sabemos que noite é,
informam os entendidos e este homem tem sempre em conta o que os entendidos informam,
que a noite é boa para as mais diversas divagações, inspirações, reflexões,
erudições,... talvez pelo silêncio enternecedor que a noite transmite, ou pelo
barulho até, ou até mesmo pelo misticismo que dizem os entendidos a noite nos
revela e que nos deixa assim, como este homem, que dizíamos no inicio desta
narração ali escreve a estas horas da noite, ruminando opiniões, criticando,
moralizando, vociferando, insultando e batendo duas vezes com a mão na
secretária de quatro gavetas e que vai, neste preciso momento, com a sua
ferramenta de escrita, um teclado alfanumérico, bater violentamente, e isso não
podemos ver devido ao sitio de má localização onde nos encontramos, mas
garantimos que é verdade, bater na cabeça de um homem que ali passa. Não
sabemos quem este homem é, o agredido, mas sim sabemos que o homem que bateu com o teclado
alfanumérico num outro homem, volta agora a casa, isso agora já podemos ver do ponto de onde estamos, e
sem se dar conta, aquele tipo de coisas que não tem uma aparente explicação racional, mas só aparentemente, desperta, confuso,
não entendendo bem o porque de estar o seu instrumento de escrita, um teclado alfanumérico,
ligeiramente danificado nos seus bordos. Coisas da noite, diriam os entendidos.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Coisas do tempo, dizem
O albatroz, anda lanzudo
O canário está mudo
A morsa
sofre de insônia
E a girafa
cansou-se de esperar
Que lhe
levassem a parcimónia
Umbilical...
Umbilical...
Olha lá do
alto da vida,
Compungida
E desmaia
de solidão,
Desejando aquele indelével gesto
Que nunca chegou nem vai chegar...
Que nunca chegou nem vai chegar...
Coisas do
tempo, dizem
As gaivotas agitadas estão!
Rezam
avé-marias mecanizadas
Por culpa
de um mocho
O Louco,
Que despido passou à insurreição...
Que despido passou à insurreição...
E quem ali
chora
Agora
É o
flamingo,
Pela morte
de um primo
Que um foguete
numa tarde de domingo
O homem,
feliz
Lançou,
Mas admiravelmente o alvo falhou.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
O agente Sordo, cão de fila
O agente Sordo, alcunha de época de
formatura, institucionalmente apelidado de cão de fila, numa hierarquia
restrita, onde homens e cães lutam ferozmente por um posto nas primeiras e
segundas filas, onde a categoria e especialidade escolhida, nem sempre é por
vocação, ou por mero faro instintivo demonstrado, mas sim, por um aprofundado
desenvolvimento de relações e contactos entre homens e cães; mas diziamos, que
o agente Sordo acaba de dar uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito pauladas,
e por aí continuariamos se não tivéssemos mais condições para continuar a ver
este triste espetáculo que este agente dá sobre este homem, que por aqui passa.
É verdade, este homem que por aqui passa. E mais não escrevemos sobre este ponto. Esclarecendo para um
melhor entendimento do cenário, que este acto é practicado com a arma
secundária, em termos de precisão na escala do conjunto de armas usadas por um
cão de fila, não sendo esta tão mortífera, de primeira tentativa ao alvo como a número um,
mas tendo sim, a capacidade cirúrgica, de pisar qualquer corpo humano até à
morte. O agente Sordo terminou agora mesmo, com certo orgulho nos olhos, diríamos,
a tarefa destinada para hoje. Encontra-se com uma respiração ofegante, pulsações de cento e oitenta batidas por minuto dizem muito do esforço exercido, tudo normal neste tipo de acções desiguais, em que homens como este, especificamente treinados, batem em alvos passantes indefesos. Sentou-se agora num pequeno banco
de madeira, com uma pequena árvore esquelética de frio mesmo do seu lado
direito, à sua esquerda está um seu colega, cão de fila também, que não participou
activamente no exercício, estando nomeado para hoje como reforço, em caso de algum abuso de força demonstrado pelo alvo, algo que não aconteceu. Diga-se que este banco parece estar longe de tudo
e de todos, isolado do mundo, onde os cães de fila podem sentar-se, sossegados, mansos,
para reflectir, porque eles também tem esse direito, o de reflectir a vida; o agente Sordo bebe agora
um golo de água para alimentar a sua sede e sem ninguém o esperar, nem nós, nem a própria árvore friorenta, deu um flato, seguido de outro, ligeiramente mais ruidoso que o
primeiro. O colega, cão de fila, sorriu. O agente Sordo disse estas inesperadas mas sábias palavras:"Rendeiro que não paga a renda, bota-se fora". Estas foram palavras do homem, não do cão, nem do agente.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
O Senhor Presidente
Enquanto o Senhor Presidente, num tom declaradamente solene, grave, de estado, um tom utilizado somente por homens predestinados à nascença, que à vida, ou quando pela primeira vez a sentiram, foram prontamente selecionados, como se a ela tivessem vindo com uma particularidade especial, uma marca, um tique, um dom, ou um dote, que lhes permitisse serem eles os eleitos, que lhes permitisse articular palavras assim, como aquelas que ouvimos; mas enquanto o Senhor Presidente, dizíamos, conversava via telefone portátil com o seu homólogo de cargo e estatuto, sobre a problemática económica e sua extrema sensibilidade, volatilidade, especialmente a forma como ela, a economia, controla os destinos dos homens e suas demais vontades, o Senhor Presidente, o primeiro, diga-se, lambia muita espaçadamente, de sentido prazer, um sorvete de baunilha com pequenas pepitas de chocolate.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Livre, como uma criança
Amigos. Conversa de café.
- Sabem, em criança quando me perguntavam o queria ser quando fosse grande, respondia sempre quer queria ser professor; já viram no que vim dar...
Ouviu-se uma enorme gargalhada.
- A mim - dizia outro - quando me faziam essa pergunta respondia sempre: eu quero ser bombeiro!
Uma gargalhada mais forte que a primeira ouviu-se por todo o café.
- E tu, Vasco?
- Eu?
- Sim! O que querias ser quando fosses grande?
- Livre.
- Livre?!
- ....como uma criança.
Ouviram-se risos.
- E conseguiste? - Insistia o primeiro ironicamente.
- Não me deixaram.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Constatação gramatical
Eu roubei
Tu roubas-te
Ele roubou
Nós roubamos
Vós roubastes
Eles...foda-se, eles roubaram!
Tu roubas-te
Ele roubou
Nós roubamos
Vós roubastes
Eles...foda-se, eles roubaram!
segunda-feira, 12 de março de 2012
Diálogos do nosso tempo
- Desculpe, o senhor tem um botão?
- Um botão?! Para que quer um
botão?
Fez-se um breve silêncio.
- Para fazer um homem.
- Para fazer um homem!?... - perguntou o
outro num tom escarnecedor.
- Para fazer um homem. - insistiu o primeiro.
- E como é que se faz um homem com um
botão?!
- Com a cabeça.
domingo, 4 de março de 2012
A placidez humana
Os corvos peregrinam para norte
As gaivotas, já se ouvem no horizonte
E nós, plácidos...
À espera
Que um golpe de sorte,
Nos faça cair uma pinga na fronte.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Diálogos do nosso tempo
- O Sotôr está?
- Quem?
- Se o Senhor Doutor está!
- Com esse nome não temos cá ninguém.
- Não têm?!
- Não temos.
- Não têm?!
- Não temos.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
E o televisor, conversava...
Eram três: ele, ela e o televisor. Estavam reunidos numa acanhada
sala de estar, ele e ela sentados sobre um pequeno sofá de três lugares, estofado a um couro desbotado que por vezes se tornava incomodamente
escorregadio; o televisor, esse, estava sobre uma arca de madeira antiga, que exibia nas suas extremidades, pequenas figuras eruditas em ferro fundido. De
frente para eles, o televisor conversava: por vezes estrepitosamente, desconexo; outras vezes parecia articular discursos extremamente precisos, loquazes! Eles ouviam-no com uma atenção hipnótica; consideravam-no um interlocutor de
referência, um enorme conhecedor do mundo, das coisas da vida; ele sabia de tudo! e muitas das vezes, era a referência mestre de qualquer acontecimento passado: A sério que é verdade! Disse-o o televisor!...
Agora, ali estavam, uma vez mais, a ouvi-lo, num mutismo
profundo; por vezes lá entrelaçavam as mãos maquinalmente, outras vezes
lançavam longos e ténues sorrisos de satisfação, uma satisfação lânguida; o
televisor, conversava, conversava, conversava...
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Diálogos do nosso tempo
- Roubaram-ma! - gritava exasperado – Roubaram-ma!
- Sossegue, homem. Mas roubaram-lhe o quê? – disse um outro
que por ali passava.
- Roubaram-ma!...
- Mas o quê!? – insistia o outro.
- A calma. – respondeu num tom lânguido.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
De um amigo:
A HABITACIÓN
Xélido crucifixo de ferro,
Hábito branco, corazón frío,
Sonda, soro e barrotes brancos,
Liturxia sen sentido.
Paseos polos corredores brancos,
Miradas, desprezo e penitencia,
Eucaristía obrigada,
Submisión, pobreza e piedade
forzada,
Sabas brancas, cadeiras brancas,
Cerebros esbrancuxados,
Uñas negras, pel morena,
Rosario de mármore branco.
Abrazos esvaecidos, roces
fuxidíos,
Choros sen bágoas, mortalla
branca,
Pálpebras cerradas, labios
fendidos,
Voces afogadas no branco dos
muros.
Pasos silandeiros, unha porta
branca,
E un voitre negro cun vurullo
branco
Que axexa o neno que dorme
O insomnio dun pesadelo branco.
Poema de Manuel Eiroa; a nossa singela homenagem à língua galega.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Diálogos dos nosso tempo
- E sabes – disse num tom reprovador – o gajo é um
democrata!
- A sério!?
- Sério!
- Coitado... – completou o outro com um ar escarnecedor.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O Sr. Presidente
O Sr. Presidente acabou de entrar no seu gabinete. Tirou o seu blazer, tecido caxemira de dois botões e bolsos com palas; aliviou ligeiramente o nó da gravata de seda e meia lua e, com soberbo
desplante, atirou-se sobre o seu cadeirão de couro de quatro rodas, fazendo-o
deslizar sobre a sala.
Convirá mencionar, para um melhor entendimento dos factos, que o Sr. Presidente tivera um dia esgotante: duas conferências de imprensa pela manhã; a tarde dedicada à inauguração de um radar meteorológico no alto de Santa Catarina e para finalizar o dia, um rápido meeting com dois conselheiros. Deixou para este preciso momento a revisão de um discurso sobre a importância da eloquência num estadista. Decide adiar a leitura.
Convirá mencionar, para um melhor entendimento dos factos, que o Sr. Presidente tivera um dia esgotante: duas conferências de imprensa pela manhã; a tarde dedicada à inauguração de um radar meteorológico no alto de Santa Catarina e para finalizar o dia, um rápido meeting com dois conselheiros. Deixou para este preciso momento a revisão de um discurso sobre a importância da eloquência num estadista. Decide adiar a leitura.
Junto à sua mesa de madeira de pinho, dá agora pachorrentas voltas sobre o cadeirão; suspira por várias vezes e boceja de forma insolente, pelo
menos uma vez; fixa o seu olhar sobre um quadro pendurado na parede norte do gabinete - exibe um retrato seu pintado a óleo - e, inopinadamente, mantendo o olhar na imagem, decide fazer um pedido por telefone à sua assistente de gabinete - encontra-se numa sala contígua à sua.
- Fernanda!
- Sim, Sr. Presidente.
- Traga-me os meus berlindes, por favor.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A censura poética
O poeta, ia dissertando alguns versos quando a polícia
entrou abruptamente na sala:
- Levem-nas para a esquadra!
- Elas quem, chefe?
- Às palavras!
A plateia ovacionou de pé.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Rezinha de Natal
Liberdade
Que estás dentro de mim,
Louvado seja o teu nome
Louvado seja o teu fim.
Que estás dentro de mim,
Louvado seja o teu nome
Louvado seja o teu fim.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
O Julgamento
Um electricista, dois brokers, quatro banqueiros, oito políticos e dois accionistas de uma multinacional; eram os dezassete condenados para aquele final de tarde. Alinhados sobre um estrado de ferro, com uma fina película de plástico transparente enfiada nas cabeças, aguardavam a execução da sentença. Diante deles, abarrotando a principal praça da cidade, postava-se uma multitudinária concentração de pessoas, que assistia fielmente às execuções.
- Justiça! Justiça!... - vociferava a multidão.
Foi quando um dos condenados, o electricista, gritou:
- Mas que raio fiz eu para merecer isto!!!!
Mas só se ouviu o ruído seco dos corpos a baterem no vazio e a balançarem de um lado para o outro como se dançassem, ironicamente, a dança da morte.
- Justiça! Justiça!... - vociferava a multidão.
Foi quando um dos condenados, o electricista, gritou:
- Mas que raio fiz eu para merecer isto!!!!
Mas só se ouviu o ruído seco dos corpos a baterem no vazio e a balançarem de um lado para o outro como se dançassem, ironicamente, a dança da morte.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
A relatividade do medo
Se por acaso for na rua e passar por si um carro de polícia desgovernado, com as sirenes emitindo aquele típico som automatizado e aparentemente admoestador, levando no seu interior dois homens uniformizados, treinados e de semblante macambúzio, não se intimide, eles só vão ao pão.
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