O agente Sordo, alcunha de época de
formatura, institucionalmente apelidado de cão de fila, numa hierarquia
restrita, onde homens e cães lutam ferozmente por um posto nas primeiras e
segundas filas, onde a categoria e especialidade escolhida nem sempre é por
vocação, ou por mero faro instintivo demonstrado, mas sim, por um aprofundado
desenvolvimento de relações e contactos entre homens e cães; mas diziamos, que
o agente Sordo acaba de dar uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito pauladas,
e por aí continuariamos se não tivéssemos em condições humanas para continuar a ver
este triste espetáculo que este agente dá sobre este homem que por aqui passa.
É verdade, este homem que por aqui passa. E mais não escrevemos sobre este ponto. Esclarecendo para um
melhor entendimento do cenário, que este acto é practicado com a arma
secundária, em termos de precisão na escala do conjunto de armas usadas por um
cão de fila, não sendo esta tão mortífera, de primeira tentativa ao alvo como a número um,
mas tendo sim, a capacidade cirúrgica, de pisar qualquer corpo humano até à
morte.
O agente Sordo terminou agora mesmo, com certo orgulho nos olhos, diríamos,
a tarefa destinada para hoje. Encontra-se com uma respiração ofegante, pulsações de cento e oitenta batidas por minuto dizem muito do esforço exercido, tudo normal neste tipo de acções desiguais, em que homens como este, especificamente treinados, batem em alvos passantes indefesos. Sentou-se agora num pequeno banco
de madeira, com uma pequena árvore esquelética de frio mesmo do seu lado
direito, à sua esquerda está um seu colega, cão de fila também, que não participou
activamente no exercício, estando nomeado para hoje como reforço, em caso de algum abuso de força demonstrado pelo alvo passante, algo que não aconteceu. Diga-se que este banco parece estar longe de tudo
e de todos, isolado do mundo, onde os cães de fila podem sentar-se, sossegados, mansos,
para reflectir, porque eles também tem esse direito, o de reflectir a vida; o agente Sordo bebe agora
um golo de água para alimentar a sua sede e sem ninguém o esperar, nem nós, nem a própria árvore friorenta, dá um flato, seguido de outro, ligeiramente mais ruidoso que o
primeiro. O colega, cão de fila, sorriu. O agente Sordo disse estas inesperadas, mas sábias palavras:"Rendeiro que não paga a renda, bota-se fora". Estas foram palavras do homem, não do cão, nem do agente.