w.c constrangido
terça-feira
Diário - Fragmentos
Baixa do Porto - Nove da noite e as ruas desta cidade parecem morrer de solidão. Um ou outro passante em andar fugidio, um cão errante e solitário, umas refulgentes decorações festivas, e o resto são sombras e vento de uma suposta noite de natal...Mas até é bom ter esta taciturna perspectiva da comemoração, que a força das circunstâncias assim me o impuseram, e comprovar ao vivo que somos de facto um bicho doméstico, necessitando somente que toque arrebate o sino programado da tradição, para em uníssono, encafuarmo-nos no conforto de cada casa a beber e a comer a pantagruélica consoada à mesa de um mudo e de plástico menino jesus. O irónico deste pano de fundo, é que basta esperar mais um par de horas e deixarmos os homens adormecer no seu longo e resignado sonho de criança, para a noite deixar de ser a única nesta profunda solidão terrena...