w.c constrangido

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segunda-feira

Manolo, António Ramos Rosa e a vida


Ola, chico...que hai?

Foi num tom de indisfarçável tristeza, com aquela sua camisa de flanela, caleidoscópica, que se vestia sem modas, como se não estivesse vestida, ligeiramente desbotada nas mangas, sofrendo a inevitável passagem do tempo, que Manolo, fiel responsável por uma das livrarias basilares da cultura Galega, Couceiro, me recebia desta vez numa das minhas passagens prioritárias pelo seu templo. Confessaria mais tarde que iria reformar-se dentro de dias e os trinta e dois anos ao serviço da literatura, como guardador de livros, chegariam ao seu fim...

Arremessei um olhar fugidio, perscrutando o silêncio de Manolo, numa cúmplice compreensão fraterna.

Foram algumas as conversas que ali tivemos, sobre livros, sobre a Galiza e Portugal, sobre Torga e Castelão, sobre política, sobre o mar e marinheiros sem cais de chegada, sobre a chuva... sempre à luz da sincera e ancestral sabedoria de Manolo. Conversas inacabadas que se despediam normalmente com a oferta de um livro perdido naquelas estantes embelezadas de uma antiguidade solitária, de encontro marcado com o tempo e a vida, numa aparente imobilidade.

Lembro episódios singulares que iam acontecendo no rotineiro dia-a-dia da livraria: a freguesia, por exemplo, que entrava pela porta a dentro a pedir livros em castelhano e Manolo, sempre solícito, naquela sua simpatia terrena, informando que ali só em galego e que se desejassem podiam ir à livraria da concorrência, do outro lado da rua, onde podiam encontrar o idioma de Unamuno.

O último encontro retomaria os encontros de sempre.

A súbita mudança no tom da voz de Manolo, fez antever o cenário: Teno aquí un libriño para ti! De braço estirado no ar exibia do fundo da livraria o objecto como se de uma peça valiosa tratasse: “O Navio da matéria”. Era este o livro de poemas para mim, do poeta, falecido à entrada do outono de 2013, Antonio Ramos Rosa. Para além da fecundidade poética do autor, mais que reconhecida, confessava Manolo que o livro trazia um prefácio onde se descrevia o profundo interesse do poeta algarvio pela a Galiza e a sua ligação umbilical com o nosso País, onde se destacava também a perene amizade com o poeta galego Euzebio Lorenzo, aliás amizade homenageada no portaló do livro...

Sorri. Arremessamos umas quantas palavras perdidas, propositadamente... Cumprimentamo-nos e despedimo-nos na enganadora suspensão do tempo, com a funda sensação que a nossa amizade ficararia perpetuada nos livros da lembrança.

A minha singela homenagem ao Manolo, aqui fica. Um trecho do prefácio e um fragmento de um poema de “O Navio da Matéria”. Afinal ainda tudo está por escrever.


 Limiar 

 "(...) O meu velho amigo está atento aos vários aspectos do movimento literário que se produz na Galiza e é dos poucos residentes em Lisboa que tem uma lúcida transparência sobre a língua comum, galaico-portugués, e também da separação das duas expressões do seu tronco comum. Quando falo com ele descubro atitudes novas, surpreendentemente novas para um debate que se vai adiando, mais pela inércia e pela dinâmica das próprias coisas que um dia não muito longínquo se fará, felizmente. Isto para um, ou para muitos galegos, é de agradecer já que na intelectualidade da Lisboa acutal Galiza é como uma ideia demasiado fugidia e abstracta, configurada nos próprios limites de um estado que para os portugueses nunca lhe aportou “Nem bons ventos nem bons casamentos”. Por certo, esta ideia cosmopolita tem pendulando bastante em não realizar um esforço na verificação  de uma das nacionalidades mais antigas da península Ibérica que deu todos os seus atributos à formação e à idiossincrasia da nação portuguesa. Os esforços verificam-se com mais intensidade na preferia, entre douro e minho. Lembremos aquele entusiasmo de Teixeira de Pascoaes e a intelectualidade galega, e ainda, na actualidade são ainda mais propensas entre intelectuais da Galiza e do Porto, do com o resto de Portugal. É verdade que em Lisboa Antonio Ramos Rosa não é uma expeção, mas não é um intelectual passivo sobre esta matéria (...)”. 

Xosé Lois Garcia


O meu poder é a minha fragilidade orientada 

O meu poder é a minha fragilidade orientada 
através de blocos tranquilos 
para um vasto espaço de presenças e presságios 
que inebriam a sede e à vibrante impaciência 
oferecem o magnifico instante 
O peso redondo e compacto do destino 
não é mais do que a curva de uma ave 
sobre a linha longínqua do horizonte 
(...) 

António Ramos Rosa