w.c constrangido

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sexta-feira

Interferências "im"percepetíveis

No Equador da minha viagem, passo por uma espécie de triângulo do Neiva. É um local carregado de mão cósmica, virgem, quase no seu todo, rasgado somente no meio, por um trilho de piche serpenteante e tedioso. Invisível perante o radar civilizacional, oiço o ruído sôfrego do motor, e de fundo, como acompanhamento rítmico, uma ténue tentativa de comunicação radiofónica. Discorro a FM de uma ponta a outra como um cronómetro sem botão de pausa, e escuto interferências que parecem códigos de uma linguagem frequente e longa. Depois da pendente que, mais parece um pico alpino, com o motor sem ar e a bombear penosamente a cambota, vislumbro no horizonte o verde minhoto, mesclado com argamassa disforme e desordenada. Inicio a descida vertiginosa e passo a linha que baliza o triângulo místico; o motor, relaxa agora com o ar que entra nas frentes e lhe refresca o sistema mecânico, os códigos que à pouco sibilavam, começam a descodificar-se aparentemente melhor. - É emissora nº 1! - Diz alguém do outro lado em vibrato nasal. Um metrónomo sonoro avisa as notícias; após o sinal mais prolongado, oiço uma outra voz, soturna e monocórdica: “ O governo tem que ter cuidado com as contas públicas...” Um centésimo de silêncio. - É o bispo de Coimbra.. - comenta novamente a voz nasal, cúmplice daquelas palavras. Com a vista no vale do ave e com o vento de norte empurrando-me para o meu destino final, recordo as frequências cruas e imperceptíveis do Neiva, bem mais audíveis e musicais que a interferência apostólica do noticiário das cinco.