w.c constrangido
segunda-feira
Células quimicamente insaciáveis
No meio de inexoráveis dúvidas, a lei das circunstâncias fez-me acompanhá-la. Não era a primeira vez que lá entrava, já conhecia o espaço, sobretudo o dela. Virado para a tela da ria, o lugar, privilegiado, nem sempre era contemplado. - Sabes que só hoje é que me apercebi que, daqui, posso ver os aviões aterrar? - Comentava-me ela um dia. E eu até entendia esta aparente falha na visão periférica; quando a mente se conecta tenuemente com o ofício, o espírito, nem chega a faiscar perante o cenário inspirador que o rodeia. Quando entramos, no corredor que nos levava à sala, passamos por uma figura que se debruçava sobre uma máquina. - Hola, que tal? - Saudou ela num límpido castelhano. - Mhuu – Respondeu ele num murmúrio grotesco e indecifrável. Percorremos o corredor e entramos na sala; enquanto remexia os papéis organizados e carregados de notas, eu observava, livre, de espírito, a tela. - Esperas por mim, aqui! - Afirmou ela. A imagem, que ali tinha à minha frente, era motivo suficiente para a esperar, mas, bem mais forte que a contemplação artística, era a contemplação sentimental e curiosa, de a ver no seu meio. - Então não posso ir contigo? - Perguntei eu regateando. - Sim.. – Respondeu, não muito convencida. Saímos da sala e percorremos novamente o corredor, agora no sentido inverso, passamos pela figura que ainda se postava sobre a máquina: Vaya experiência hombre! - Exclamou ela. A resposta dele foi tão vazia que se confundia com o barulho sibilo da máquina. Cruzamos os olhares por breves segundos, e, sorrateiramente, sorriu-me, como se tudo aquilo lhe fosse normal. Acabava de testemunhar, naquele instante, a diferença entre um aritmético e primitivo científico, e, uma dançarina, expansiva e sorridente, que faz da ciência um mero part-time. Na porta, que dava para o laboratório, exibia-se um aviso: “Bhioazard – Proibido entrada a pessoas não autorizadas”. Ficava então a entender a hesitação inicial, relativamente à minha presença. Dentro da sala, existiam máquinas com espelhos, que pareciam ter vida própria; frigoríficos de tamanho industrial e uns quantos microscópios que me provocavam uma certa curiosidade adolescente. - Agora sentas aqui e nem te mexes! -. Exclamou ela num misto de autoritarismo terno. Respeitando a ordem, sentei-me; ouvia sinais sonoros a expandirem-se por toda a sala e parecia escutar alucinadamente de fundo, uma voz computorizada que nos avisava para abandonar a sala em segundos. - Mas porque põem estes tubos deste lado! Já disse que é deste! - Exclamava ela, movendo uns objectos, que pareciam utensílios de cozinha, de um lado para o outro; estavam dentro de um vazio estéril, protegido por um vidro que reproduzia o reflexo do seu perfil. Era tudo uma questão de organização, ou até de perfeição; entendia, ou pelo menos fazia o esforço. - E seu carregar neste botão? – Provocava eu o meu instintivo anarquismo de salão de chá. - É bom que não o faças. - Comentou ela responsavelmente. Continuava a deslocar os objectos, e agora, como complemento do exercício, injectava uns líquidos coloridos em recipientes transparentes, passando-os depois, repetidamente, para os frigoríficos medonhos e enormes. Então não vai sair fumo daí? - Comentava em tom irónico. - Achas!? - Respondia-me sorrindo levemente. - Eu não faço experiências dessas! - Voltava a comentar. Enquanto isso, havia uma outra “câmara de fluxo laminar", segundo me tinha explicando, mesmo à minha frente. Via-me reflectido no vidro que, ao mesmo tempo me reincidia pensamentos sobre o que se passava naquela exígua sala. No seu meio e com a enxada científica nas mãos, via-a como nunca a tinha visto: aqueles movimentos mecânicos e ao mesmo tempo tão fluidos; aqueles gestos organizados e extremamente metódicos; o ar aveludado e compenetrado que a tornavam séria e ao mesmo tempo tão delicada naquele acto orgânico, faziam-me admirar e senti-la de outra forma. Semelhantes que éramos nos sentidos, opostos, naquele meio molecular. A minha contemplação era mística, como se algo no meu corpo buscasse naquele lado, o verso da minha existência. - Posso ver a minha mão no microscópio? - Perguntei. - Sim. Não vais ver nada. Mas tenta. - Tentei de facto e para além de umas manchas turvas que com dificuldade desfocava, nada mais deslumbrei. Saiamos da sala, no corredor já não se encontrava a figura estranha, se bem que a máquina continuava a sibilar como se agora, ele, estivesse dentro dela, envolvido no murmurar dos seus códigos primitivos. - Vamos? -. Sim. - Respondi eu, sabendo que o que se tinha ali passado, eram apenas células do mesmo átomo, a alimentar o seu núcleo insaciado.