w.c constrangido

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quarta-feira

Ironia dos sentidos

- Desculpe, Miguel Torga, tem alguma coisa? - Perguntei discretamente ao guarda do templo. - Nada. Tudo esgotado.- Retorquiu-me carrancudo acelerando o passo como se tentasse evitar-me. Mas era verdade, tinha remexido todas as finas estantes daquela sala e do poeta, pintor de palavras, nada. Neogótico de berço, o templo, literário, sempre me despertou fascínio; naquela tela, as artes misturam-se de tal forma que se fundem numa só; tornando-a bela, perfeita e única. - Mas vai ter? - Insisti. E já bem longe falando numa voz grave e espalhafatosa, respondeu-me a mim e a toda livraria. - Oh amigo, obviamente que sim! É como ir a Roma e não ver o Papa! – Mas o certo é que não havia, e mudo, deixei cair um sorriso irónico. Tinha ido à Meca das letras e para além de não ter encontrado o Miguel, seiva de Torga, tinha sido rudemente recebido. O encanto passava rapidamente a desencanto corrosivo. Mas o guarda continuava atarefado: - Desculpem, já está cerrado. Manána à tarde. Gracias! – Informava num castelhano gago um pequeno aglomerado de peregrinos que curiosos e entre flashes tentavam entrar no templo. Vagueava pelos livros procurando então outro que me completasse o espírito e sossegasse a inquietude. Não deixava de reparar naquele homem que interpelei, não lhe questionava o lado conhecedor, talvez o tivesse, no meio de tanta obra inspiradora seria impossível não ter, mas, aquela atitude altiva, autoritária e até ufana de tratar um simples visitante do seu templo, sujava ligeiramente a pintura harmónica daquele sítio. E não parava de me surpreender: – Sotor, muito obrigado, muito obrigado. Volte sempre Sotor, muito obrigado... - Vergava-se de mão estendida perante outro semelhante que abandonava a livraria. Outrora autoritário guardador de livros, agora mero servo da sua própria condição. Ironia dos sentidos aqueles diferenciação humana; tinha como todos o cartão de identidade umbilical para me identificar, mas não chegava para um simples trato educado. Os dísticos de posição sim, esses subvertiam tudo, até a curva da vénia que de tão submissa, se tornou corcunda para sempre. - Quer saco? – Pelo menos a isso tinha direito. – Deixe estar, vai assim. – E abandonava aquele desencanto irracional contrabalançado pela fantasia física que levava na mente e nas mãos...