w.c constrangido

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sexta-feira

O observador

O homem que ali está sentado sobre aquele banco de jardim, soma, em idade de arquivo de notário, setenta e oito anos; a idade real não sabemos, é provável que tenha mais, é provável que tenha menos, é tudo uma questão de posição e ângulo, ou até mesmo de uma instintiva sensibilidade para analisar faces do corpo. Contudo, se olharmos para este homem com olhos de observador atento, sabendo de ante mão que o atento por vezes não chega, podemos confirmar, não por uma simples dedução de aparências, ou por mero palpite de moeda ao ar, mas sim pelo que vemos e sentimos, que este homem está velho da alma; velho, não pela circunstância natural que qualquer ser desta terra está sujeito, o de envelhecer, mas sim  porque a vida, endureceu a alma deste homem de tal forma, que nem puxando pela nossa parca imaginação, conseguimos ter  ideia dos caminhos de pedra dura que este homem percorreu durante a vida. Meras conjecturas de observador atento. Podemos também confirmar daqui, deste ponto privilegiado que nos encontramos, que este homem exibe um olhar incrivelmente profundo; olhar, diga-se, que nos é familiar, olhar que se fixa assim, num aparente vazio, quando sem contarmos, se abate sobre o espírito um qualquer pensamento, dos variadíssimos graus de pensamento que existem, aquele olhar que, quem está de fora, pensando ainda estar dentro, lhe dá a sensação que o outro descolou deste mundo e entrou noutro. A verdade não andará muito longe disso.. .Mas, não vamos nós estar a cometer uma injustiça com este ser que ali está sentando sobre um banco de jardim e dar-se o caso, que esta seja na verdade a sua forma de estar, de ser: olhar sobre este olhar, pensamento sobre este  pensamento, tristeza sobre esta tristeza, caminho de pedra sobre este caminho de pedra, talvez assim ouça melhor o cegarrega que ali canta agora, o vento que ali voou e que aqui ouvimos, ou até mesmo aqueles três homens que  ali  do seu lado falam de coisas, sim, é mesmo disso que falam, de coisas. Mas também, se formos racionais pelo menos uma vez na vida, deduzimos facilmente que este homem não ouve nenhum cegarrega e vento não deve ouvir, mas sim sentir a penetrar nos cansados ossos, e se ouve homens a falar de coisas, será enquanto descola para o outro mundo, só seu, de mais ninguém, onde se cruza num dos caminhos de pedra que percorreu na vida, com esses homens que falam de coisas. Desviamos levemente o olhar e quando o retomamos novamente sobre este homem, apanhamo-lo a levar lentamente a mão à nuca, para a coçar, talvez, previsível dedução, dirão, mas um sinal inequívoco que pelo menos este homem está vivo, não vá alguém pensar o contrário. Um passante, em andar acelerado acaba de olhar gravemente para o seu semblante, mas rapidamente retoma o olhar.
Talvez por distracção nossa, ou falta de visão periférica, coisas de observador atento que se encontra ao longe, ou até mesmo de observador atento que viu mas não quis ver, confirmamos que este homem tem um pequeno copo de plástico mesmo do seu lado direito, na qual desconhecemos o seu conteúdo, mas que rapidamente, numa nova dedução de observador atento dizemos que terá água, e mesmo sobre os seu joelhos, penetrados pelo vento, exibe um pequeno pedaço de cartão que diz, com letras bem legíveis, essas fáceis de ver à vista desarmada, letras que nem parecem deste homem, mas sim de um outro qualquer: “Se fosses olhar pró caralho...”. 
Voltou a coçar ligeiramente a nunca. Vemos outro passante, mas este vai de olhos no chão.