w.c constrangido

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sexta-feira

Diário - Fragmentos

Espinho. Chega-se a esta terra e a vida passa a ser um quadro triste de uma silenciosa sala de estar. Nada acontece. Faz-se uma ou outra decoração festiva, vêm os santos, abrem-se as portas da praia, deixa-se o sol entrar, mas nem assim... A cidade é um velho casco de um navio onde nem desventuras passadas há para contar...Desço a 19. Passo pela casa museu do pensador Manuel Laranjeira, - escritor universal, incompreensivelmente esquecido - entro no vazio de sombras dos arranha-céus, faço a esquina do casino do azar, cruzo a 4, e sento-me no muro, linha divisória que separa a praia do passeio. Tudo igual. O mar mecânico, as pessoas macambúzias, as vozes num protesto mudo, doméstico... Até que de repente, cravo a atenção nuns leves cantares que vêm dos sanitários públicos. Dois homens e uma mulher fazem guarda às retretes, em ofício camarário: de papel higiênico na mão dão com bonomia apoio ao passante aflito. Enquanto isso, sorriem, cantam, atiram piropos a quem passa e preguiçam a vida numa volúpia terrena. O espectáculo enche-me o espírito. Deixo-me estar. Disfarço o olhar, faço que não os oiço e de soslaio, numa curiosidade de berço, vou tacteando os gestos e os comportamentos daqueles homens sem nome, daquela gente do lugar comum, - o lugar do poeta - ... e o mar como de um momento para outro deixa de ser o mesmo e sol, entra agora, mas sem pedir licença.